Passaram-se mais de duas décadas entre o surgimento e a “morte” do cyberpunk. Apesar do tempo, essa estética característica da cibercultura permanece em objetos comunicacionais como games, música, flyers, moda, entre outros. A fusão homem-máquina, o implante de memórias, a idéia de superação da carne pela mente, a dissolução entre real e simulação, o visual obscuro dos figurinos (a dupla couro + óculos escuros), a metrópole soturna e o estilo technoir, continuam a permear o imaginário pop. Elementos do estilo cyberpunk continuam tendo apelo cinematográfico, seja em filmes “alternativos” como Brilho Eterno de uma Mente Inquieta (Eternal Sunshine of a Spotless Mind, Michel Gondry, 2004) e Código 46 (Code 46, Michael Winterbottom, 2003) ou em blockbusters como Sin City (Frank Miller e Robert Rodrigues, 2005) e até mesmo Homem- Aranha 2 (Spider man II, Sam Raimi, 2004). Eternal Sunshine lida 14 com a idéia de intervenção tecnológica nas memórias; Código 46 trata de um mundo futurista em que a genética determina os relacionamentos amorosos; em Sin City, o visual neogótico está no figurino dos personagens principais, e Homem Aranha 2 nos apresenta ao vilão Dr. Octopus que possui braços mecânicos implantados que acabam por tomar conta do cérebro do personagem.
Em 2006, pelo menos mais dois filmes retomam as temáticas cyberpunks, indireta ou diretamente: A Scanner Darkly (Richard Linklater, 2006), mais recente adaptação da obra de Philip K. Dick expõe as contradições da vigilância em um mundo simulado e The gene generation (do diretor asiático-norte-americano Perry Reginald Teo) trata do submundo dos hackers de DNA em um futuro não muito distante, apostando as fichas no visual nipônico-dark, se autoproclamando um filme cyberpunk2. O videoclipe da trilha sonora original – “Get your body beat” da banda de electro-ebm-industrial Combichrist (e seu visual nitidamente cyberpunk) já foi disponibilizado via You Tube3 pelo próprio Perry Teo, que também dirigiu o vídeo, provando que a liberação do pólo emissor e o espírito do Faça Você Mesmo funciona como uma potente ferramenta de divulgação e marketing em tempos de ciberespaço. Todos esses filmes recebem uma carga imagética gerada pela proposta original dos cyberpunks em que a tecnologia aparece como um elemento trivial na vida cotidiana e que a comunicação humana se dá através das máquinas.
Nas ruas, assistimos ao desfile de tecnologias móveis como iPods e outros mp3 players, celulares, etc. Palavras do campo da tecnologia como download, blogs, wi-fi são reapropriadas pelas mídias e no uso cotidiano das pessoas. Partindo da premissa de que passamos de um momento de conexão para uma era de mobilidade, visualizamos as tecnologias móveis como “herdeiras” da estética provocadora do movimento cyberpunk original. Em vez de seres com implantes de chips nos cérebros, o envio de mensagens, vídeos, fotos e músicas ao toque do polegar. Ainda assim, os conceitos e a própria influência do cyberpunk nesse contexto, continuam encobertas, em uma ramificação de teorias que vão da crítica literária à sociologia, passando pelas teorias do cinema, formando assim um corpus próprio e legítimo da cibercultura. O legado do cyberpunk ainda não descansou seus ossos de silício em um cemitério qualquer e continua enviando sinais de vida pelos monitores nas mais diversas manifestações tecnológicas das comunidades no Orkut e My Space da vida aos vídeos no You Tube.
Do ciberespaço gibsoniano, agora uma noção “clássica” cyberpunk, às conexões móveis de um momento pós-cyberpunk, é preciso repensar essa trajetória estética característica da cibercultura e que se encontra presente nos atos mais comuns como acessar um extrato bancário ou enviar fotos e vídeos de um show de rock diretamente pelo celular aos amigos em outro continente. Agora que um suposto “fim do ciberespaço como nós conhecemos na década de
90” começa a ser discutido, talvez, “a rua tenha encontrado seus usos para a tecnologia”, conforme vislumbrou Gibson no princípio dos anos 80 e, para tanto, torna-se necessário revisar conceitos e rever teorias.
Adriana Amaral. Porto Alegre, agosto de 2006.
Blog da autora: http://palavrasecoisas.blogspot.com/
Alguns artigos sobre o assunto:
Visões Perigosas
Visões Perigosas (outra fonte)
Cyberpunk e Pós-modernismo
A visão cyberpunk de mundo através das lentes escuras de Matrix
Minority Report – rastreando as origens do cyberpunk
McLuhan e neuromancer: aldeia global e outros conceitos no imaginário cyberpunk
A dualidade mente e corpo na ficção-científica: de Philip K. Dick ao movimento cyberpunk
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